
O acesso ao mercado financeiro nunca foi tão fácil. Com poucos cliques, qualquer pessoa consegue abrir uma conta em uma corretora e investir em ações de empresas que admira ou considera promissoras. Esse movimento democratizou os investimentos e trouxe milhões de novos participantes para a bolsa.
Mas, junto com essa facilidade, surgiu um comportamento que merece atenção: a prática do chamado stock picking, ou seja, a escolha individual de ações para compor uma carteira de investimentos. Muitos investidores iniciantes acreditam que identificar uma empresa inovadora ou com potencial de crescimento é suficiente para obter retornos extraordinários. Infelizmente, a realidade é bem mais complexa.
Em tradução livre, stock picking significa “escolha de ações”. Trata-se da estratégia de selecionar empresas específicas para investir, em vez de aplicar recursos em fundos ou índices amplos de mercado.
O objetivo é superar o desempenho médio do mercado, conhecido como benchmark. Para isso, o investidor normalmente utiliza duas ferramentas principais.
A análise fundamentalista, que avalia aspectos como receita, lucro, endividamento, vantagens competitivas e qualidade da gestão; e o valuation, que busca determinar o valor justo de uma empresa para identificar oportunidades em que o mercado estaria precificando uma ação abaixo do seu potencial real.
Na teoria, parece simples. Na prática, exige conhecimento técnico, tempo, disciplina e uma capacidade de análise que nem sempre está ao alcance do investidor comum.
O erro mais comum: confundir uma boa empresa com um bom investimento
Uma empresa pode ser excelente e, ainda assim, representar um investimento ruim em determinado momento. Da mesma forma, uma companhia inovadora pode ter um futuro promissor, mas enfrentar anos de volatilidade antes que esse potencial se traduza em resultados concretos.
Esse é um ponto especialmente importante quando falamos de setores ligados à inovação, inteligência artificial, biotecnologia, direção autônoma, computação quântica ou novas tecnologias.
Muitas vezes o investidor ouve que determinado segmento possui enorme potencial de crescimento e conclui que basta comprar uma ou duas empresas desse mercado para capturar todo esse valor. O problema é que ninguém sabe, com segurança, quais serão os vencedores.
A história dos mercados mostra que diversas empresas consideradas líderes em suas áreas acabaram desaparecendo, enquanto concorrentes menos conhecidos assumiram posições dominantes anos depois.
Um dos maiores perigos do stock picking é a concentração. Imagine um investidor que acredita no futuro dos veículos autônomos. Ele seleciona cinco empresas do setor e investe uma parcela relevante do seu patrimônio nelas. À primeira vista, parece diversificado. Afinal, são cinco empresas diferentes.
Mas, na prática, ele está exposto ao mesmo risco econômico: o sucesso ou fracasso de um único segmento. Se houver mudanças regulatórias, dificuldades tecnológicas ou uma desaceleração do setor, todas essas empresas podem ser impactadas simultaneamente.
Por isso, reforço que diversificação não significa apenas possuir vários ativos, mas possuir ativos com diferentes fontes de risco.
Outro ponto pouco discutido é que superar consistentemente os índices de mercado é extremamente difícil. Diversos estudos internacionais mostram que a maioria dos gestores ativos não consegue bater seus respectivos benchmarks ao longo de períodos prolongados. Relatórios da série SPIVA, produzidos pela S&P Dow Jones Indices, indicam que o desempenho superior tende a ser raro e, principalmente, difícil de sustentar ao longo do tempo.
Se profissionais que contam com equipes de análise, acesso a dados avançados e décadas de experiência enfrentam dificuldades para superar os índices de forma consistente, é razoável imaginar o desafio enfrentado pelo investidor individual. Isso não significa que ninguém consiga obter sucesso com stock picking. Significa apenas que os riscos e as exigências são muito maiores do que muitos imaginam.
ETFs: uma alternativa para quem busca exposição a tendências
Quando um investidor acredita em uma grande transformação econômica ou tecnológica, nem sempre a melhor estratégia é tentar adivinhar qual empresa será a vencedora. Uma alternativa pode ser investir em veículos que reúnam diversas empresas do mesmo setor, como ETFs temáticos ou setoriais.
Dessa forma, o investidor reduz o risco de escolher o “cavalo errado” e aumenta suas chances de capturar o crescimento estrutural daquele mercado. A diversificação é amplamente reconhecida como uma das principais ferramentas para reduzir riscos específicos sem abrir mão da participação nos ganhos do mercado.
É uma abordagem menos emocionante do que encontrar a próxima grande vencedora da bolsa, mas frequentemente mais eficiente do ponto de vista de gestão de risco.
Antes de escolher ações, construa uma estratégia
Talvez o maior erro dos investidores seja começar pela última etapa do processo. A escolha das ações deveria vir depois da definição de questões muito mais importantes. Qual é o objetivo do investimento, qual o horizonte de tempo, quanto risco o investidor suporta, qual deve ser a proporção entre renda fixa e renda variável, e como será feita a diversificação entre setores, países e classes de ativos. Somente após responder a essas perguntas faz sentido discutir quais empresas farão parte da carteira.
Escolher ações sem uma estratégia é semelhante a comprar a peça mais avançada de um computador sem verificar se o restante do sistema é compatível. O componente pode ser excelente, mas não funcionará adequadamente dentro de uma estrutura desequilibrada.
O stock picking pode ser uma estratégia legítima e até bastante rentável quando executada com método, disciplina e conhecimento técnico. No entanto, é importante compreender que investir em ações individuais não é apenas apostar em boas histórias ou empresas inovadoras. Trata-se de um processo complexo de gestão de risco, construção de portfólio e tomada de decisões sob incerteza.
Por isso, antes de comprar uma ação porque alguém comentou sobre uma empresa promissora nas redes sociais, em um vídeo ou em uma reportagem, vale a pena fazer uma pergunta simples: estou investindo porque compreendo a estratégia por trás dessa escolha ou apenas porque gostei da história? No mercado financeiro, essa diferença costuma custar caro.
Por Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital