Coluna

O dólar não é a moeda mais valiosa do mundo

Reuters News Brasil
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Quando alguém pergunta qual é a moeda mais valiosa do mundo, quase todo mundo responde automaticamente: dólar. Alguns arriscam o euro ou a libra esterlina. Mas a resposta costuma surpreender.

A moeda de maior valor nominal frente ao dólar é o dinar kuwaitiano (KWD). Hoje, um único dinar vale aproximadamente US$ 3,27 dólares, ou algo acima de R$ 16, dependendo da cotação do dia.

O mais curioso é que muita gente sequer conseguiria apontar o Kuwait no mapa. O pequeno país do Golfo Pérsico abriga uma das maiores reservas de petróleo do planeta e possui um dos menores custos de extração da commodity. Essa combinação permitiu ao governo acumular riqueza ao longo de décadas, gerar sucessivos superávits fiscais e criar um dos maiores fundos soberanos do mundo, responsável por investir parte dessa riqueza para as futuras gerações.

Essa disciplina fiscal reduziu a necessidade de endividamento público e ajudou a preservar a estabilidade da moeda. Mas existe um detalhe importante. O fato de o dinar valer mais de três dólares não significa que a economia do Kuwait seja maior do que a americana ou que sua moeda seja “mais poderosa” que o dólar no comércio internacional.

Na prática, o valor nominal de uma moeda é resultado de uma série de fatores: política cambial, oferta monetária, inflação, produtividade da economia, reservas internacionais e credibilidade das instituições.

Em outras palavras, uma moeda pode ter um preço elevado simplesmente porque o país decidiu que ela teria essa denominação. Se um governo cortasse um zero de sua moeda amanhã, ela passaria a valer o dobro em relação ao dólar sem que a população ficasse mais rica..

Além do dinar kuwaitiano, outras moedas do Oriente Médio aparecem entre as mais valorizadas nominalmente do planeta, como o dinar do Bahrein, o rial de Omã e o dinar jordaniano. Em comum, esses países possuem economias relativamente pequenas, forte presença do setor de petróleo e gás (com exceção parcial da Jordânia), além de regimes cambiais bastante administrados, voltados para preservar estabilidade.

O caso do Kuwait, porém, merece atenção especial por outro motivo. Criado em 1953, o Kuwait Investment Authority (KIA) é considerado o fundo soberano mais antigo do mundo. Estima-se que administre centenas de bilhões de dólares em ativos espalhados pelo planeta. A lógica é simples: transformar uma riqueza finita, o petróleo, em patrimônio financeiro capaz de gerar renda mesmo quando as reservas naturais diminuírem.

É uma estratégia que muitos países ricos em recursos naturais tentam replicar. A Noruega talvez seja o exemplo mais conhecido. Também criou um gigantesco fundo soberano alimentado pelas receitas do petróleo, hoje considerado um dos maiores investidores institucionais do mundo.

A principal lição, entretanto, não se limita ao petróleo. Riqueza não depende apenas de recursos naturais. Depende, sobretudo, da forma como eles são administrados. História econômica está repleta de países extremamente ricos em minérios, petróleo ou outras commodities que permaneceram pobres justamente por falta de instituições sólidas, responsabilidade fiscal e planejamento de longo prazo.

No mercado financeiro, existe uma tendência de procurar respostas simples para questões complexas. A moeda mais cara, a ação mais barata, o investimento da moda. Mas economia raramente funciona assim.

O valor nominal de uma moeda diz muito menos sobre a força de um país do que sua capacidade de gerar riqueza de forma sustentável, preservar a confiança dos investidores e manter instituições capazes de atravessar crises.

Da próxima vez que alguém perguntar qual é a moeda mais valiosa do mundo, a resposta provavelmente continuará sendo o dinar kuwaitiano. Mas a pergunta realmente interessante talvez seja outra: o que faz uma economia construir riqueza duradoura? Essa resposta, ao contrário da cotação de uma moeda, vale muito mais do que um número na tela.

Bruno Corano é economista da Corano Capital