
Existe uma ideia que se tornou extremamente popular nos últimos anos: a de que qualquer pessoa pode ficar rica investindo. Basta aprender a operar, encontrar as melhores ações, descobrir a estratégia certa e ter disciplina. Eu considero essa ideia perigosa.
Não porque investir não seja importante. É. Não porque o mercado financeiro não possa construir patrimônio. Pode. Mas porque existe uma confusão fundamental nessa história: investir dinheiro é diferente de ganhar dinheiro. E, para a maioria das pessoas, essa diferença é decisiva. Lembro da história de um americano que, em 1998, tinha US$ 5 mil guardados. Era todo o dinheiro que possuía. Ainda estudante e sem conhecimento sobre o mercado financeiro, decidiu tentar incrementar seus recursos comprando e vendendo ações, fazendo day trade.
Perdeu os US$5 mil. Depois, tomou outros US$3 mil emprestados e perdeu também. Em menos de dois anos, tinha conseguido uma façanha que ninguém gostaria de experimentar: havia perdido todo o patrimônio que tinha e ainda estava endividado. Mas aquela experiência acabou sendo, paradoxalmente, uma das melhores coisas que poderiam ter acontecido com ele. A perda destruiu uma ilusão: a de que ele era mais esperto do que os outros, de que poderia entrar no mercado sem conhecimento suficiente e simplesmente ganhar dinheiro.
Ele descobriu da pior maneira possível uma regra que considero fundamental: não existe dinheiro fácil, muito menos no mercado financeiro. O mais interessante é o que aconteceu depois. Ele passou a estudar. A trabalhar. A desenvolver conhecimento. E mudou sua relação com o dinheiro e com os investimentos. Alguns anos depois, aos 25 anos, já era milionário. Em 2022, seu patrimônio havia chegado a aproximadamente US$80 milhões.
O que mudou? Não foi a descoberta de uma fórmula mágica para ganhar na bolsa. Foi a compreensão de que o patrimônio vem depois da capacidade de gerar renda. Essa é uma distinção que parece óbvia, mas que está sendo esquecida. Se você tem R$10 milhões investidos e consegue uma determinada rentabilidade sobre esse patrimônio, evidentemente vai ganhar dinheiro investindo. O capital passa a trabalhar para você. Mas a pergunta que quase nunca aparece nas redes sociais é outra: como você chegou aos R$10 milhões?
É aí que está o ponto. Para quem ainda não tem patrimônio, o principal instrumento de enriquecimento não é a carteira de investimentos. É a capacidade de gerar renda. É por isso que eu digo que ninguém fica rico investindo. Pelo menos não no sentido em que essa frase costuma ser vendida. Investimento multiplica capital. Trabalho, empreendedorismo, conhecimento e capacidade de gerar valor constroem o capital inicial. Isso também ajuda a explicar por que as pessoas têm remunerações tão diferentes.
Não estou dizendo que o salário de uma pessoa determina seu valor como ser humano. Evidentemente que não. Estou falando de uma lógica econômica: quanto mais rara é uma habilidade, quanto mais complexo é o problema que alguém consegue resolver e quanto maior é o valor que essa solução produz, maior tende a ser sua remuneração. Um profissional capaz de resolver um problema que poucas pessoas sabem tem, em geral, mais poder de negociação do que alguém que executa uma tarefa facilmente substituível.
Por isso, uma das melhores formas de aumentar o patrimônio não começa com uma pergunta sobre investimentos. Começa com uma pergunta sobre você mesmo: que problema eu sei resolver? E, principalmente: que problema eu poderia aprender a resolver que hoje não sei? Essa talvez seja uma pergunta muito mais importante para quem quer enriquecer do que “qual ação vai subir amanhã?”
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Vivemos em uma época em que as redes sociais transformaram o mercado financeiro em entretenimento. Pessoas mostram ganhos, carros, viagens e telas com números verdes. Vendem a impressão de que existe um caminho relativamente simples entre abrir uma conta em uma corretora e construir riqueza. O que não aparece na mesma proporção é o trabalho que vem antes. Não aparecem os anos de estudo, carreiras construídas, negócios que deram errado, habilidades desenvolvidas, ou decisões difíceis. E, principalmente, não aparece o capital que existia antes daquele investimento começar a render. Isso cria uma perigosa inversão de prioridades.
O jovem que ainda não conseguiu construir uma renda consistente pode imaginar que precisa descobrir o investimento perfeito. Talvez devesse estar pensando em como aumentar sua capacidade profissional. Quem está começando a carreira talvez esteja mais perto de aumentar seu patrimônio aprendendo uma nova habilidade do que tentando ganhar alguns pontos percentuais a mais em uma aplicação.
Isso não significa que investir seja secundário. Depois que você começa a acumular dinheiro, investir bem se torna fundamental. É justamente aí que entram diversificação, disciplina, horizonte de longo prazo, gestão de risco e conhecimento financeiro. Mas investimento não deveria ser tratado como substituto do trabalho. E muito menos como atalho para a riqueza.
O mercado financeiro é extremamente importante. Eu trabalho nele e acredito profundamente em sua capacidade de alocar capital, financiar empresas e criar oportunidades. Mas justamente por conhecer esse mercado, sei que ele não é uma máquina de produzir milionários para quem chega sem conhecimento, sem capital e sem uma estratégia consistente.
O day trade é um bom exemplo. A promessa de ganhar dinheiro rapidamente é sedutora. Mas o fato de ser possível ganhar dinheiro em uma operação não significa que seja possível transformar operações de curtíssimo prazo em uma fonte fácil e consistente de riqueza. O mercado não está esperando por você.
Do outro lado da sua operação existem pessoas, instituições e profissionais com conhecimento, experiência, tecnologia e recursos. A ideia de que basta ser suficientemente inteligente para vencer todos eles, é, no mínimo, ingênua. Foi exatamente essa arrogância que aquele jovem americano perdeu junto com seus primeiros US$5 mil. E talvez essa tenha sido sua maior fortuna.
Ele descobriu cedo que conhecimento custa tempo. Que dinheiro não aparece do nada. E que, antes de fazer o dinheiro trabalhar para você, é preciso construir algo que possa ser colocado para trabalhar. Eu não quero dizer com isso que você não deva investir. Quero dizer que talvez esteja fazendo a pergunta errada.
Em vez de perguntar apenas “onde devo colocar meu dinheiro?”, pergunte também: “Como posso me tornar mais valioso?” “Que conhecimento ainda me falta?” “Que problema complexo eu posso aprender a resolver?” “Como posso aumentar minha renda?” Depois, sim, pergunte onde investir o dinheiro que conseguiu construir.
O investimento pode fazer seu patrimônio crescer. Mas, para a maioria de nós, a riqueza começa muito antes da primeira aplicação financeira. Começa no trabalho. No conhecimento. Na capacidade de criar valor. E essa é uma verdade muito menos sedutora do que a promessa de enriquecimento rápido. Mas é, provavelmente, muito mais próxima da realidade.
Bruno Corano é economista da Corano Capital