Leopoldo Vieira para o FLJ

Eleições 2026: o Brasil na "mansa tempestade"

Pixabay
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Se a polarização acirrada provê estabilidade à corrida eleitoral brasileira, já que o cenário de emparelhamento e a probabilidade de desfecho em 50%-50% pouco se alteram, ela também contém o risco de “morte súbita” na apuração, alimentado pela alternância eventual da liderança nas pesquisas. Resultado: uma combinação paradoxal entre zona de conforto e imprevisibilidade, que induz a um clima constante de incerteza no mercado financeiro e de “barata voa” no meio político.

Com a dinâmica do mercado e das redes digitais moldando a percepção de tempo da população e reduzindo o espaço dos grandes temas do desenvolvimento, surge uma profusão de narrativas eleitorais evitando que o “reality” da política nacional deixe de monetizar e de fazer preço na bolsa.

As pressões inflacionárias ordinárias e extraordinárias, as oscilações negativas na aprovação do governo nas pesquisas, coincidindo com o avanço rápido do senador Flávio Bolsonaro nas intenções de voto, instigaram uma nova rodada de análises sobre a competitividade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nesse contexto, exemplos de questões são: por que, com tantas entregas, o governo não consegue ampliar sua margem de avaliação positiva e Lula, sua dianteira? Por que a comunicação, supostamente, não dá resultados? Quais as motivações do aparente mal-humor do eleitorado? Como superar a polarização, fator que ajuda a explicar os três primeiros questionamentos?

ZEITGEIST NÃO É DE DIREITA, É DE “VIRADA DE MESA”

Há diversos aspectos, da economia à psicologia, que tangenciam as respostas. Contudo, alguns dados de 2025 do Ipsos Populism Report podem contribuir para clarificar os sentimentos de fundo.

Segundo os números brasileiros do levantamento bienal, realizado em 31 países, 58% defenderam a necessidade de um líder disposto a “quebrar regras” para “consertar o país”; 71% indicaram a importância de eleger um presidente forte para “tirar o país das mãos dos ricos e poderosos”; 76% disseram que a economia é manipulada para beneficiar os “ricos e poderosos”; 73% avaliaram que partidos tradicionais não se importam com a população; e 69% perceberam a sociedade como mais deteriorada.

Também recentemente, pesquisas da Genial/Quaest mostraram patamares acima de 60% de entrevistados afirmando que o presidente não estava conseguindo cumprir suas promessas de campanha, sendo a mais lembrada a dupla “picanha e cerveja”, associada ao aumento da renda disponível e do tempo livre.

Esses números sugerem uma vontade da sociedade de se reconectar com o sistema político, mas não pela acomodação ao status quo, e sim pela força de uma liderança que “compre a briga” da população contra “ricos e poderosos”. Em paralelo, apontaram para um chamado à ação do presidente com essa abordagem antissistema.

ESTÁVEL IMPREVISIBILIDADE

De certa forma e sob contrariedade do mercado, Lula o atendeu, fortaleceu-se em seu eleitorado raiz — trabalhadores, mulheres, católicos etc. — e observou uma onda de crescimento e estabilização nas pesquisas, ora perturbada pela definição de seu antagonista eleitoral, pelos impactos da guerra no Oriente Médio e pelo ciclo inflacionário dos primeiros trimestres.

Se não for encerrada já no primeiro turno, a corrida pelo Palácio do Planalto tende, sob o retrato atual, a expressar nos dois turnos as mesma margens estreitas. Isso significa uma guerra intensa de curto prazo, porém permanente, na qual o senador Bolsonaro, ao expor suas posições, arrisca-se a substituir o governador Tarcísio de Freitas como encarnação do establishment político e econômico — afora seu desgaste potencial ao ser vinculado com a crise da pandemia de Covid-19, vista como o ponto de virada para o desfecho de 2022.

Cabe refletir se a reorientação antissistema do governo em 2025 ainda não produziu efeitos suficientes para alterar o equilíbrio estrutural da disputa ou se o caminho a ser percorrido passa, justamente, por intensificá-la, atualizando com maior nitidez quais “brigas” o eleitorado deseja que sua liderança chame para si. Uma atualização que também valeria para Flávio.

Para interlocutores políticos influentes, que preferem não falar isso publicamente, a linha de Lula até aqui tem funcionado como barreira a um revés maior, ainda que fosse limitado pela polarização, e pode ser o motor de uma arrancada após o primeiro trimestre. O senador Bolsonaro, por sua vez, deveria se preocupar mais com indicar seu eventual ministro da Saúde do que o chefe da Fazenda, segundo análises que já circulam em grandes corretoras da Faria Lima.