
Brasília, 30/1/2026 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira a indicação de Kevin Warsh para o posto de chair do Federal Reserve, cargo máximo da autoridade monetária, em uma nomeação que marca o retorno de um ex-dirigente ao banco central, cuja carreira é marcada por respeitadas credenciais em âmbito profissional e na academia, na esteira de uma ascensão meteórica e precoce.
Warsh, de 55 anos, ainda precisará ter sua indicação por Trump aprovada pelo Senado, mas o viés é favorável. De acordo com a Bloomberg, o veterano de Wall Street provavelmente seria bem aceito por ampla gama de senadores republicanos. Mas sua nomeação esteve longe de ser uma certeza entre operadores de mercado. Na reta final da corrida ao posto de presidente do Fed, Warsh não era o favorito, atrás de Rick Rieder, da BlackRock.
A nomeação desta sexta representa também um “acerto de contas” por Trump. O republicano favoreceu a escolha de Jerome Powell para o comando do Fed em seu primeiro mandato, em 2017, ante Warsh. À época, pesou a pouca idade de Warsh, de acordo com o Wall Street Journal. Warsh, porém, não desistiu. Ao longo da última década, seguiu cultivando laços com o círculo de Trump e promovendo a agenda econômica do republicano.
TRAJETÓRIA
Warsh fez história ao ser nomeado o governador mais jovem da história do banco central em 2006, aos 35 anos. No entanto, já à época seu currículo era invejável. Cursou bacharelado em políticas públicas em Stanford, graduando-se em 1992. Também possui diploma em direito, pela Universidade de Harvard, além de uma ascensão meteórica no Morgan Stanley.
Em 2002, passou a integrar a equipe de conselheiros de política econômica de George W. Bush. Casou-se, no mesmo ano, com Jane Lauder, executiva da Estée Lauder e herdeira de uma das famílias mais ricas dos EUA. Seu sogro, Ronald Lauder, é um ex-colega de classe de Trump e importante doador do Partido Republicano.
Presente no conselho de governadores do Fed em 2008, Warsh também assumiu papel de liderança na coordenação da resposta de política monetária do banco central, aproveitando-se de suas conexões em âmbito financeiro. Participou do resgate da AIG, e ajudou a orquestrar a aquisição do Bear Stearns pelo JPMorgan, de acordo com o Wall Street Journal.
Desde que renunciou ao cargo no Fed, em 2011, Warsh atuou como consultor do Duquesne Family Office, do lendário investidor Stanley Druckenmiller, e atuou em diversos conselhos corporativos. Além de ter sido membro do think tank conservador Hoover Institution e professor da Stanford Business School, Warsh assessorou Trump em assuntos econômicos por anos.
CRÍTICAS A POWELL
Talvez mais importante neste processo: Warsh é um crítico ferrenho de Powell e sua condução de política monetária. Em entrevista à Barron’s, em outubro de 2025, Warsh cita o que considera ser uma série de erros na condução da política monetária por Powell que levou a inflação a patamar superior a 9% em junho de 2022, na máxima em quatro décadas.
“O Fed de Powell não conseguiu acertar as taxas de juros durante a maior parte de seu mandato. Histórico errado, estrutura operacional errada, falta de curiosidade e de credibilidade”, afirmou. Também de acordo com Warsh, o Fed “implorou por preços mais altos” ao adotar uma meta média de 2% que permitisse que a inflação permanecesse acima do alvo para compensar períodos em que ficou abaixo dele.
Warsh lista um aprendizado que teve com Paul Volcker, ex-banqueiro central conhecido globalmente por ter combatido com firmeza a alta da inflação nos EUA entre o fim da década de 1970 e início dos anos 1980. “Ele me disse que o trabalho do banco central é fazer duas coisas. Primeiro, ajustar as taxas de juros. E segundo é garantir que pareça que você sabe o que está fazendo.”
O Fed de Powell, na visão de Warsh, falhou em ambas as medidas. Assim, ele entende que o próximo presidente do banco central só poderá restaurar a credibilidade da instituição reformulando a maneira como o Fed encara sua relação com os mercados, a economia e o restante do governo.
Warsh costumava citar, antes da nomeação, a necessidade de uma “mudança de regime” no banco central. Segundo ele, os modelos que o banco central usa para interpretar os dados econômicos estão errados. Warsh foi assistente de pesquisa de Milton Fridman, e é defensor da corrente de pensamento do monetarismo, que defende que o aumento da oferta da moeda pode impulsionar a inflação.
“Eles acreditam que a inflação é impulsionada pelos consumidores, por salários que estão subindo e por consumidores que estão gastando demais. Discordo fundamentalmente. No fundo, acho que a inflação surge quando o governo gasta demais e imprime dinheiro demais”, afirmou à Barron’s.
ESCOPO DO FED
Warsh também tem muitas ressalvas às áreas significativas da autoridade do Fed, bem como a gestão discricionária sobre o balanço patrimonial da instituição. Em sua visão, o Fed deveria parar de manter ativos oriundos do processo de afrouxamento quantitativo conduzido pela autoridade monetária durante a Crise de 2008 e a pandemia da Covid-19.
À Barron’s, Warsh disse que apoiou o processo de afrouxamento quantitativo pelo Fed há quase duas décadas como uma espécie de “mal necessário”. Em 2010, por exemplo, alertou em discurso que “qualquer decisão de expandir ainda mais o balanço patrimonial deve ser submetida a um escrutínio rigoroso”, sob risco de o banco central provocar inflação.
As mudanças propostas por Warsh podem atender a alguns objetivos de Trump. Para além de pregar o processo de redução do balanço patrimonial e repensar a teoria de inflação que guia o banco central, Warsh reconhece os benefícios da Inteligência Artificial para os preços. “A IA será uma força desinflacionária significativa, aumentando a produtividade e reforçando a competitividade americana.”
Também defende uma limitação das áreas de autoridade do Fed, como a supervisão bancária. Segundo Warsh, o Fed prejudicou os bancos menores, “retardando o fluxo de crédito para a economia real”. Um eventual alívio de restrições a bancos menores atenderia um dos pontos da política econômica de Trump e Scott Bessent, de desregulação.
INDEPENDÊNCIA DO FED
Se for confirmado pelo Senado, Warsh não terá vida fácil perante agentes de mercados. A nomeação ocorre em um momento de escalada das tensões entre o Poder Executivo e o Fed, acentuadas pela recente intimação que Powell recebeu do Departamento de Justiça, com ameaça de acusação criminal contra o presidente do banco central.
Trump, por sua vez, usou tom ameno para descrever a nomeação de Warsh ao posto nesta sexta. Evitou fazer cobranças diretas a respeito de cortes de juros, mas disse não ter dúvidas de que Kevin “será lembrado como um dos grandes presidentes do Fed, talvez o melhor”. “Além de tudo, ele é perfeito para o papel e nunca decepciona”, complementou.
Warsh sempre se mostrou cauteloso em relação à inflação e frequentemente defendeu juros mais altos durante seu período no Fed, de acordo com a Bloomberg. Em 2025, porém, ecoou a visão de Trump de que os juros poderiam ser significativamente menores.
“A disposição para cortar os juros é vista como um teste decisivo para o próximo presidente, o que preocupa os observadores do Fed, que temem que isso possa comprometer a independência do banco central”, afirmou a publicação. Ainda assim, Warsh é apenas um voto de sete para formar maioria no Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC).
Warsh também herda um banco central que se encontra dividido, porém. A decisão desta semana, que manteve os juros inalterados no intervalo entre 3,50% e 3,75%, não foi unânime. Desde meados de 2025, o estafe do Fed apresenta decisões dissidentes, ilustrando o desafio que Powell enfrenta.
Ele também lida com desafios sem precedentes na história moderna, de acordo com com Nick Timiraos, do WSJ. “Gerenciar as consequências do aumento de preços relacionado a tarifas após vários anos de inflação acima da meta; avaliar como a inteligência artificial está remodelando a produtividade e os mercados de trabalho; e responder à ascensão das moedas digitais.”
Timiraos vê Warsh como a ruptura mais clara do Fed desde 1979, quando Paul Volcker assumiu o cargo e reconduziu a abordagem da instituição em relação à inflação. “Todos os presidentes desde que Alan Greenspan substituiu Volcker em 1987 enfatizaram a continuidade com seus antecessores. Warsh prometeu uma ruptura clara”, disse.
WALL STREET
O mercado também olha para a postura de Warsh. Se confirmado pelo Senado, sua primeira decisão de juros a presidir ocorrerá em 17 de junho. Será um teste de fogo, já que Trump não demonstrou paciência com Powell, e sinalizou anteriormente que indicaria alguém com viés para redução dos juros. “Qualquer pessoa que discorde de mim jamais será presidente do Fed!”, escreveu em dezembro.
Investidores e estrategistas classificaram como “relativamente hawkish” a decisão de Trump de escolher Warsh para liderar o Fed. Eles veem a inclinação dos rendimentos de longo prazo do Tesouro, bem como o fortalecimento do dólar, como justificativas pela provável resistência que Warsh apresentará a uma expansão do balanço patrimonial.
“A reação do mercado a condições financeiras mais restritivas e uma curva de juros mais acentuada concentra-se na crítica de Warsh a um balanço patrimonial maior. No entanto, a decisão sobre o balanço patrimonial também depende do nível de equilíbrio das reservas, e acreditamos que outros membros do Fed não apoiarão qualquer redução do balanço”, afirmou a gestora de portfólio do JPMorgan Investment Management, Priya Misra, à Bloomberg.
“A inclinação mais acentuada da curva faz sentido. Talvez Warsh possa concordar com a ideia de enfatizar os ganhos de produtividade da IA como argumento para juros mais baixos, mas ele tem sido crítico da expansão do balanço patrimonial do Fed, então talvez haja menos otimismo em relação ao uso do balanço patrimonial do Fed para gerenciar custos de empréstimo no longo prazo da curva”, afirmou o chefe de estratégia macro da CreditSights, Zach Griffths, à Bloomberg.
Druckenmiller, por sua vez, disse que Warsh não adota uma postura permanentemente agressiva em relação à política monetária. “A imagem de Kevin como alguém que é sempre ‘hawkish’ não é correta. Já o vi agir das duas maneiras”, afirmou o lendário investidor ao Financial Times.
Segundo ele, Warsh se mostra “muito aberto” à abordagem de política de Alan Greenspan, que supervisionou o banco central na década de 1990 durante um período de intenso crescimento da produtividade. “Kevin acredita firmemente que é possível ter crescimento sem inflação”, afirmou Druckenmiller.
FUTURO
O senador Thom Tillis, membro da Comissão Bancária responsável pelas nomeações para o Fed, escreveu nas redes sociais na sexta-feira que Warsh é um “candidato qualificado com profundo conhecimento de política monetária”. Mas afirmou que se oporá à nomeação até que a investigação seja concluída.
Tillis poderia impedir a aprovação de Warsh pelo Comitê Bancário, dada a estreita maioria republicana de 13 a 11 no painel, caso todos os democratas se oponham à nomeação. Os líderes republicanos poderiam então tentar contornar o comitê e levar a questão diretamente ao plenário.