
São Paulo, 28/11/2025 – Vale, Itaú e Axia, ex-Eletrobras, anunciaram na noite de ontem propostas significativas para remuneração aos acionistas, antecipando-se à tributação de dividendos mensais acima de R$50 mil pagos por empresas a pessoas físicas partir de 2026, em movimento que poderá ganhar mais tração até o fim deste ano e deve envolver diversas companhias listadas em bolsa.
A Vale, por exemplo, anunciou remuneração total de R$3,58 por ação ordinária e preferencial, equivalente a um dividend yield de 5,3%, de acordo com cálculos da Mover. Papéis da mineradora eram principais contribuidoras para Ibovespa, em termos de pontos, adicionando mais de 300 pontos por volta das 12h30.
A mineradora passará a negociar data-ex a partir de 12 de dezembro, com pagamento ocorrendo via dividendos ou juros sobre capital próprio em três datas: em 7 de janeiro, R$1,24 por ação serão pagos sob forma de dividendos; em 4 de março, R$0,76 serão pagos sob forma de dividendos e R$1,56 serão pagos sob forma de JCP.
Também na véspera, Itaú anunciou remuneração a acionistas de R$23,4 bilhões – equivalente a um dividend yield de 5,4%. O pagamento se dará em duas datas: em 19 de dezembro, R$1,86 serão pagos sob forma de dividendos; e até 30 de abril, R$0,36 serão pagos sob forma de JCP.
A Axia, por sua vez, declarou intenção de distribuir até quase R$40 bilhões em reservas de lucros nos próximos anos, embora ainda não tenha determinado o valor exato. A elétrica distribuirá o dividendo por meio de uma nova classe de ações resgatáveis (PNC), como forma de garantir a remuneração sem tributação mesmo em meio às incertezas sobre o tratamento tributários dos proventos após 2025.
Além das grandes empresas da B3, a São Carlos também aprovou a distribuição de dividendos no montante de R$406,1 milhões, equivalentes a R$7,10 por ação, que representa 29% de dividend yield, muito acima da média de 3,31% da empresa.
A distribuição de remuneração aos acionistas vem na esteira da aprovação, pelo Congresso, de medida compensatória introduzida pela Câmara dos Deputados, em outubro, para fazer frente à isenção ou redução do Imposto de Renda para quem ganha até R$7.350 mensais
INCERTEZAS
Além da tributação estabelecida, as empresas ainda enfrentam imbróglios a serem esclarecidos sobre as distribuições. A lei aprovada prevê que empresas mantenham isenção tributária de seus acionistas ao declarar a remuneração ainda neste ano, com possibilidade de o desembolso ocorrer até o ano de 2028.
Porém, de acordo com a Lei das SA, de 1976, o dividendo, quando declarado por uma companhia, tem de ser pago no mesmo exercício fiscal. Há ainda uma proposta em discussão na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) para estender o prazo de distribuição da remuneração a acionistas, pelas companhias, até abril de 2026 – mas que ainda não foi votada.
Assim, segue o limite original estipulado pela lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para declaração de remuneração: 31 de dezembro de 2025, o que também levanta questões a respeito do lucro do exercício das companhias, uma vez que os balanços são fechados apenas a partir da virada do ano.
De acordo com a XP, estudo mostra que reservas de lucros e alavancagem proporcionam “espaço para dividendos” de até R$614,8 bilhões, equivalente a um dividend yield de 22,8, em um caso hipotético em que todas as companhias sob cobertura distribuíssem integralmente as reservas de lucros.
Naturalmente, é pouco provável que as companhias distribuam todo o seu potencial, em razão das sérias consequências que haveria para eventual esgotamento de caixa e reservas.
Com isso, algumas empresas têm adotado estratégias “criativas”, como no caso da Axia Energia, com a proposta de remunerar investidores com ações resgatáveis, e da Engie, que aprovou aumento de capital de R$1,96 bilhão com reservas de lucros mediante bonificação em ações, para não ficar sem caixa em meio a um pesado plano de investimentos.
Ainda assim, mesmo cenários de distribuição parcial implicam rendimentos relevantes: uma distribuição de 25% do valor potencial resultaria em um yield de 6,8%; uma distribuição de 33%, em um yield de 8,9%; e uma distribuição de 50%, em um yield de 13,5%.
Na análise setorial, papéis atrelados a commodities e defensivos se destacam, com potenciais dividend yields de 27,3% e 29,0%, respectivamente, segundo o estudo citado pela XP. Além disso, setores como Construção Civil, Bens de Capital e Tecnologia, Mídia e Telecomunicações apresentam espaço significativo para aumentar alavancagem caso optem por antecipar pagamentos de dividendos.
EFEITO NO CÂMBIO
Tradicionalmente, o fim de ano nos mercados locais também é marcado por envio de remessas ao exterior – em virtude de fechamento de balanços anuais de multinacionais, concentrando envio de lucros, dividendos, além de outros fluxos.
Para efeitos de comparação, em dezembro de 2024, Banco Central realizou intervenções recordes no mercado de câmbio, na esteira de forte depreciação do real, diante de saída massiva de recursos para exterior, e preocupações fiscais locais com governo Lula, além de expectativa por posse de Donald Trump.
O pagamento de dividendos extraordinários por companhias, naturalmente, também levanta questionamentos a respeito de eventual comportamento semelhante neste ano. Companhias listadas em bolsa possuem base significativa de acionistas estrangeiros, e pagamento de dividendos abre espaço para potencial conversão imediata de reais em dólares para remessa ao exterior, o que ampliaria a sazonalidade de saída de recursos.
No entanto, para o contribuidor do TC, Alex Martins, a dinâmica atual é diferente. “Não acho que o montante (de remuneração a acionistas) é tão forte. Você pode ter, em um dia, o dólar um pouco mais comprador, mas não acho que a ponto de distorcer muito o câmbio”, explicou.
Martins também avalia que a conjuntura atual tem mostrado viés favorável para mercados emergentes, o que pode diminuir viés de saídas de recursos neste fim de ano.
Pesquisa recente do Bank of America de novembro apontou para posicionamento favorável, por investidores, a índices de mercados emergentes em 2026, em meio à rotação observada nos mercados globais, e viés positivo para região, na esteira de eleições de meio de mandato na Argentina e visão de que políticas de austeridade fiscal, e guinada à direita, são cenários potenciais para a geografia.
“Fluxo mostra visão muito otimista para mercados emergentes. Acho difícil o estrangeiro remeter. Acho até por isso que o câmbio está comportado, tranquilo”, opinou Martins. Mediana de projeção do Focus para câmbio ao fim de 2025 aponta para dólar a R$5,40.