
A reação rápida do governo brasileiro aos efeitos da guerra no Irã, sem interferir na política de preços da Petrobras, tende a limitar desgastes políticos em um momento de pressão sobre os índices de aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Palácio do Planalto enfatiza que o pacote anti-inflacionário é temporário, para amortecer um choque extraordinário. Além da sobretaxa sobre exportações de petróleo bruto, ele inclui a zeragem de impostos federais sobre o diesel, subsídios a produtores e importadores do combustível e o reforço da transparência e da fiscalização. Para analistas internacionais, o fato de o Brasil ser um exportador líquido de petróleo amplia a margem de manobra do país sem comprometer a estabilidade fiscal.
A crise energética decorre da escalada militar iniciada há duas semanas, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou uma ofensiva contra o regime iraniano na expectativa de uma vitória rápida e incontestável, como ocorreu na Venezuela. O resultado, porém, foi uma demonstração de capacidade de contra-ataque e a prevalência de um código moral muito mais antigo do que as táticas descritas em A Arte da Negociação, livro do mandatário americano. O fechamento do Estreito de Ormuz, cuja liberação era considerada fácil por investidores, provocou o maior choque de oferta de petróleo da história. Mísseis e drones iranianos continuam atingindo alvos em Israel e em centros financeiros do Oriente Médio. Segundo autoridades em Teerã, o barril, que voltou ao patamar de US$100, pode alcançar US$200.
“Quem lhe deu autoridade para arrastar nossa região para uma guerra com o Irã? E com base em que você tomou essa decisão perigosa? Você colocou os países do Conselho de Cooperação do Golfo e os países árabes no centro de um perigo que eles não escolheram”, escreveu nas redes sociais, em 5 de março, Khalaf Al Habtoor, bilionário de Dubai e empresário do setor hoteleiro.
Diante da previsível assimetria militar, a resistência iraniana à blitzkrieg conduzida por Washington e Tel Aviv sugere um disputa no terreno da opinião pública global, sobretudo a americana, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. Uma derrota republicana abriria espaço para um processo de impeachment contra Trump — hipótese mencionada por ele mesmo a correligionários. Nesse contexto, a alta prolongada do petróleo e as pressões inflacionárias associadas conferem peso adicional ao encontro previsto entre Lula e Trump na Casa Branca.
Com Washington, por ora, atolado em um cenário distante de seus planos iniciais, um novo acordo nuclear entre EUA e Irã não deve ser descartado. A ideia remete à iniciativa articulada em 2010 por Lula e pelo então primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, que chegaram a mediar um entendimento preliminar entre as partes. Ao anunciar o pacote anti-inflacionário, Lula recordou o episódio: “Lamentavelmente, depois do acordo feito, tanto os países europeus quanto os EUA aumentaram o bloqueio ao Irã porque nós éramos um país considerado do terceiro mundo, e ter feito um acordo que eles não tinham conseguido fazer em 20 anos era descabido”. Para Trump, um acordo reduziria o custo eleitoral de um conflito prolongado e cada vez mais caro para sua administração; para a economia mundial, ajudaria a conter a volatilidade e estabilizar o preço da energia.
Durante seu governo, o ex-presidente Jair Bolsonaro também recorreu a medidas para conter a alta dos combustíveis em meio à inflação provocada pela pandemia de Covid-19, que chegou perto dos dois dígitos. Além de pressionar publicamente a Petrobras por reajustes moderados, apoiou a redução e posterior zeragem de tributos federais sobre gasolina, diesel e gás de cozinha e sancionou leis que limitaram o ICMS cobrado pelos estados sobre combustíveis. Em 2021, Bolsonaro decidiu substituir o comando da Petrobras, destituindo Roberto Castello Branco após sucessivos aumentos vinculados à política de paridade internacional.
Ao anunciar o pacote, além de responder ao risco político, Lula protege o ciclo baixista moderado dos juros brasileiros, previsto para começar neste mês, e os ganhos — cambiais e deflacionários — decorrentes da rotação global de investimentos para emergentes provocada pela Casa Branca.