
A suspensão das regras que governam o “mundo civilizado” sem questionamento, e o exercício da violência como um direito natural — como aponta um manifesto de intelectuais críticos à operação militar dos Estados Unidos na Venezuela — deixaram a dimensão geopolítica e bateram à porta do Federal Reserve (Fed). Seu presidente, Jerome Powell, recebeu intimações do Departamento de Justiça com ameaças de acusação criminal relacionadas às reformas na sede da instituição, ao custo de US$ 2,5 bilhões ao contribuinte em 2025.
Powell reagiu imediatamente, afirmando tratar-se de pressão política para que ceda à vontade do presidente dos EUA, Donald Trump, de reduzir agressivamente as taxas de juros. “Ele [Powell] certamente não é muito bom no Fed e não é muito bom na construção de edifícios”, disse Trump em declaração à imprensa doméstica, sugerindo a conexão entre os dois fatores.
Recentemente, Trump também ameaçou proibir a compra de casas por instituições do mercado financeiro, vetar a atuação da petroleira ExxonMobil na Venezuela, por pedir reformas profundas antes de retomar investimentos, e obrigar companhias de cartão de crédito a estabelecerem um teto de 10% para as taxas de juros até 20 de janeiro — mesmo com juristas e financistas alertando que a medida exige alteração da legislação no Congresso.
No caso do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, a acusação de chefiar organizações narcoterroristas não impediu Washington de tentar negociar um exílio, sem restrições ao usufruto de recursos depositados em bancos estrangeiros, com o mais novo preso do Centro de Detenção Metropolitano (MDC) do Brooklyn. Seja com Maduro ou com Powell, a questão não são as acusações, mas a disposição de alcançar objetivos a qualquer custo.
Há quem considere esse modo de agir um método inspirador de negociação ou veja Trump como uma espécie de redentor diante do avanço de visões antagônicas ao status quo americano e de grandes agentes econômicos e corporações. Mas há também quem avalie como imperiosa a necessidade de restabelecer a lei e a ordem universais, algo que não deveria ser menosprezado em nome da realização de lucros e da abertura de oportunidades com base na ética do “faço porque posso”. “Tenho profundo respeito pelo Estado de Direito e pela responsabilidade em nossa democracia. Ninguém está acima da lei”, afirmou Powell ao defender o Fed.
Para o Brasil, a pressão sobre Powell produz efeito baixista sobre o dólar, ajudando a controlar — e até reduzir — a inflação, o que, por sua vez, facilita o trabalho do Banco Central (BC) de iniciar o ciclo de queda da Selic, sobretudo após dados de dezembro indicarem inflação dentro dos parâmetros da meta. Mais uma vez, Trump acaba ajudando politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fortaleceu a autonomia do BC ao criticar os juros elevados sem interferência política, inclusive aquela sutilmente permitida pela chantagem.
Como lembra uma tradição crítica da teoria política do século XX, não há separação mecânica entre meios e fins: meios imorais corrompem inevitavelmente os fins, ainda que estes se apresentem como elevados. É nos meios que se antecipa o tipo de ordem que se pretende construir.
É evidente que as regras podem mudar e que negociações disruptivas podem surgir, mas isso exige respeito não apenas às normas, como também às formas legítimas de alterá-las. Voltar ao “estado de natureza”, como se vê agora de Caracas a Wall Street, só normaliza a expansão de poder por meio da força e da intimidação.
Assim, a defesa da autonomia do Fed, da soberania da Venezuela — ou mesmo da Europa, no caso da Groenlândia — assim como a do BC brasileiro diante das articulações políticas para anular a liquidação do banco Master, estão conectadas como um desafio do chamado “mundo livre”.