Bolsas tiveram dia tenso pelo mundo

Ibovespa escapa de liquidação de mercados globais após surpresa com tarifas de Trump

Ibovespa escapa de liquidação de mercados globais após surpresa com tarifas de Trump

São Paulo, 03/04/2025 – O Ibovespa fechou em leve queda nesta quinta-feira, escapando da realização maciça vista nos mercados acionários globais, após imposição de tarifas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreender negativamente investidores, com alíquotas acima do esperado que podem perturbar cadeias de oferta global, reacender a inflação e desacelerar a atividade.

O Índice Bovespa encerrou com recuo de 0,04%, aos 131.140 pontos. O volume de negociação foi de R$21 bilhões, acima da média dos últimos 50 pregões, de R$16,1 bilhões.

Os vértices ao longo da curva de juros encerraram em queda de até 42 pontos-base, sob visão de que um ambiente de commodities pressionadas para baixo, e um real apreciado ante o dólar, favorecem conjuntura para o Comitê de Política Monetária (Copom) encerrar o ciclo de aperto monetário antes do esperado.

O alívio na curva de juros impulsionou diversas ações de empresas alavancadas, como Auren, ou cíclicas, como as de varejo, incluindo Magazine Luiza e Lojas Renner, enquanto a forte queda no petróleo, em parte associada aos anúncios de Trump, pesou sobre Petrobras, PRIO e Brava.

Apesar de não refletir nos preços durante a sessão de hoje, o mercado também acompanhou o leilão de títulos pré-fixados (NTN-F e LTN), que vendeu 20,6 milhões de 21,5 milhões ofertados de LTN. O Tesouro também vendeu o lote integral de 3 milhões de NTN-F.

Ao fim da tarde, o dólar futuro operava em queda de 1,13%, cotado a R$5,655. O índice Dólar DXY recuava 1,50%, aos 102,13 pontos, maior queda intradiária desde novembro de 2022, em um dia de fortalecimento de divisas como euro, libra esterlina, peso mexicano e peso canadense ante a moeda americana.

Na véspera, Trump disse que irá aplicar tarifas de importação de 10% aos produtos oriundos do Brasil. O percentual anunciado é o piso entre as outras nações que tambem sofreram taxação. A China, por exemplo, terá tarifa recíproca de 34%, que se somará a 20% aprovados antes, resultando em uma tarifa cumulativa de 54%.

Para a XP, as tarifas são uma medida negativa, mas com saldo positivo para o Brasil, tendo em vista que a bolsa local pode continuar se beneficiando do movimento de rotação global, com investidores saindo dos EUA e aportando em mercados emergentes.

O mercado, porém, arrefeceu trajetória de alta após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dizer em evento que o país adotará “medidas cabíveis” para proteger os trabalhadores locais ante a imposição de tarifas por Trump, em um mundo no qual, segundo ele, o “protecionismo não cabe”.

“Tomaremos todas as medidas cabíveis para defender nossas empresas e nossos trabalhadores”, afirmou Lula. O petista também disse, sem dar muitos detalhes, que ainda vai anunciar no momento certo novos programas do governo, em meio à trajetória contínua de aceleração da sua desaprovação em pesquisas eleitorais.

No cenário político doméstico, operadores reagem a mais uma pesquisa divulgada pela Genial/Quaest, segundo a qual 62% dos brasileiros acham que Lula não deveria se candidatar à reeleição em 2026.

A pesquisa Genial/Quaest também simulou eventual 2º turno na eleição de 2026, mostrando que presidente Lula (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está inelegível, empatariam dentro do limite da margem de erro. Outros sete nomes tambem entraram na simulação, e Lula sairia vitorioso contra todos.

Mais cedo, o presidente e CIO da Verde Asset Management, Luis Stuhlberger, disse que o Brasil “não aguenta mais um governo do PT”, e avaliou que o presidente Lula deve apelar para novas medidas fiscais caso sua popularidade não melhore, pressionando a trajetória das contas públicas, de acordo com Broadcast.

Para o gestor, o esgotamento de Lula, visto na trajetória contínua de desaprovação em pesquisas eleitorais, parece “algo estrutural”, o que abre espaço para uma vantagem competitiva “muito grande” para nomes de oposição em 2026, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Ao fim da sessão, as principais detratoras da sessão foram as ON da Vale e as PN e ON da Petrobras, que recuaram 3,62%, 3,23% e 3,53%, respectivamente.

Os papéis ON da Brava, da PRIO e da São Martinho, lideraram entre as quedas percentuais, cedendo 7,18%, 6,95% e 5,79%, na mesma ordem.

Na ponta positiva, destaque para as ON da Auren, da Magazine Luiza e as Units do Iguatemi, que avançaram 7,58%, 5,45% e 5,12%, nesta ordem.

Nos mercados de commodities, futuros do petróleo Brent para entrega em junho recuavam ao fim do dia 6,62%, a US$69,99 por barril, caminhando para a maior queda diária desde agosto de 2022, após imposição de tarifas, por Trump, levantar temores crescentes de uma menor demanda pela commodity, diante de uma potencial desaceleração da atividade econômica global.

Somou-se ao anúncio das tarifas, decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+) de acelerar a redução dos cortes na produção de petróleo em maio contribuiu para perdas adicionais. Segundo a Bloomberg, cartel tomou decisão para deliberadamente derrubar preços e ´punir´ membros do grupo que estavam produzindo além das cotas, como Iraque e Cazaquistão.

No minério de ferro, futuros negociados na bolsa chinesa de Dalian interromperam sequência de ganhos e recuaram 0,32% na última madrugada, após as novas tarifas sobre importações anunciadas ontem pelos EUA aumentarem riscos de demanda. Genial avaliou que medida pode restringir exportações de aço da China, potencialmente prejudicando o consumo de minério por siderúrgicas.

 

BOLSA EUA

Os índices acionários em Wall Street encerraram em firme queda, com o S&P500 apagando cerca de US$2 trilhões em valor de mercado, enquanto companhias com modelos de produção dependentes do exterior despencaram na sessão, sob contínuas incertezas a respeito dos efeitos da política comercial de Trump, que promete reverter avanços significativos na globalização das cadeias de produção.

Os índices Dow Jones, S&P500 e Nasdaq 100 fecharam em quedas de 3,98%, 4,84% e 5,34%, respectivamente. Dow Jones e S&P500 tiveram o pior desempenho diário desde junho de 2020, enquanto Nasdaq 100, desde setembro de 2022. Destaque também para o índice Russell 2000, de smallcaps, que recuou 6,49% e entrou em território de “Bear Market”, acumulando uma queda superior a 20% desde topo histórico em novembro de 2024.

As Treasuries yields de dois anos recuaram 13,6 pbs, a 3,706%, enquanto as de dez anos cediam 8,0 pbs, a 4,047%, após terem recuado abaixo de 4% brevemente, sob contínuos temores de uma recessão econômica nos EUA, e com demanda por ativos de segurança pelos investidores.

Em meio à derrocada dos índices, em um dia visto como histórico para os mercados globais por gestores, investidores e operadores, Trump disse a repórteres que os mercados estavam “indo muito bem”, quando questionado sobre o desempenho desta quinta. Também de acordo com ele, os mercados irão “bombar”.

Na véspera, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou à Bloomberg TV que o “selloff” visto nos mercados é oriundo da queda das Magnificent Seven, e não do projeto do governo Trump. Ele ignorou questionamentos a respeito da reação dos futuros dos índices, que despencaram depois do anúncio de Trump, e disse não ser “comentarista de mercados”.

“Estou tentando ser Secretário do Tesouro, não um comentarista de mercado. O que eu gostaria de destacar é que, se o Nasdaq atingiu o pico no dia do DeepSeek, esse é um problema Mag 7, não um problema MAGA”, disse Bessent, em referência à queda do valor das ações das sete maiores empresas de tecnologia americanas.

Hoje, o secretário do Comércio, Howard Lutnick, pontuou que Trump iria negociar com parceiros comerciais dos EUA apenas caso esses países “ajustassem” suas barreiras tarifárias e não tarifárias. Lutnick também disse que não “haveria chance” de Trump voltar atrás no tema das tarifas.

Lutnick ainda reconheceu que um dólar mais barato favorece exportações pelos EUA, embora tenha dito não haver nenhum plano do governo Trump para a divisa. Mais cedo, ele disse à Bloomberg que mundo vai se acomodar mais rápido que o imaginado às tarifas, e que vários países reduzirão barreiras comerciais.

“Quem duvidar, apostar contra Trump e a economia dos EUA estará fazendo uma aposta tola”, disse Lutnick, ao comentar as reações do mercado e de empresas aos anúncios.

A decisão de Trump de impor uma tarifa mínima de 10% a todos os exportadores para os EUA, e taxas adicionais para grandes parceiros comerciais, incluindo China, Japão e União Europeia, marca uma escalada dramática da guerra comercial. Mais cedo, o presidente da França, Emmanuel Macron, pediu às companhias francesas que interrompessem investimentos nos EUA.

Na véspera, Bessent, do Tesouro, afirmou que os países não deveriam retaliar os EUA, e afirmou que a alíquota imposta por Trump ante países seria o “teto” caso esses parceiros comerciais não retaliassem.

Cresceu, no mercado, perspectiva de que a imposição de tarifas aumenta significativamente o risco de os EUA entrarem em território de recessão. Barclays disse ver “risco alto” de recessão, enquanto o Bank of America avaliou que EUA se posicionarão no “precipício de uma recessão” caso sigam com as tarifas comerciais adotadas.

O UBS também disse ver risco de recessão técnica nos próximos meses, e reduziu previsão de expansão do PIB para apenas 0,1%. O banco revisou para cima projeções de inflação (PCE), estimando alta de 4,4% em 2025 e 4,2% em 2026, acima da meta de 2% do Federal Reserve.

(LB + GP | Edição: Luciano Costa | Comentários: equipemover@tc.com.br)