
Brasília, 26/1/2026 – O Federal Reserve deverá manter a taxa-alvo Fed Funds inalterada na decisão desta quarta-feira no intervalo entre 3,50% e 3,75%, interrompendo uma sequência de três cortes consecutivos iniciados em setembro, de acordo com expectativas praticamente unânimes do mercado, na esteira de recentes indicadores do mercado de trabalho que apontaram para um quadro mais estável.
Para além da tomada de decisão de juros tradicional nesta semana, operadores também buscarão quaisquer pistas adicionais a respeito da trajetória da política monetária em 2026, em meio ao potencial anúncio do nome do próximo chair do Fed pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) inicia amanhã sua reunião de dois dias, e divulgará a decisão na quarta, às 16h00. Powell, por sua vez, falará à imprensa às 16h30. A expectativa é de que o chair do Fed possa reestabelecer o consenso em termos de tomada de decisão, após os dissensos observados ao longo de 2025.
Derivativos negociados na Chicago Mercantile Exchange (CME) na manhã desta segunda precificavam 97,2% de chances de manutenção dos juros nesta semana. A precificação para um eventual corte de 25 pontos-base apenas ganhava tração a partir de junho.
A mais recente leitura do núcleo da inflação ao consumidor, de dezembro, recuou a 2,6% na base anual, ante 2,7%, enquanto o indicador cheio manteve-se em 2,7%, oferecendo um viés benigno e que pode ter contribuído para arrefecer a pressão da ala mais “hawkish” do banco central.
Já no âmbito do emprego, ainda que a geração líquida de postos de trabalho em 2025 tenha somado o menor nível desde 2020, a taxa de desemprego recuou ligeiramente a 4,4% em dezembro, ante dado revisado de 4,5% em novembro – aliviando temores de uma onda de demissões.
A situação de aparente “estabilização” do mercado de trabalho, ao menos no curto prazo, “não é tão urgente a ponto de exigir qualquer ação de política monetária do Fed”, afirmou a economista sênior para os EUA do Conference Board, Yelena Shulyatyeva, à Bloomberg.
O Goldman Sachs tem o mesmo viés, e aposta em uma decisão “pouco movimentada”, com a possibilidade de apenas mudanças menores no comunicado do colegiado. “Powell provavelmente vai enfatizar que o FOMC acabou de entregar três cortes de juros que devem ajudar a estabilizar o mercado de trabalho, e que, por ora, o comitê está bem-posicionado”, escreveu a equipe de research do banco.
A liderança do Fed, na figura de Powell, “provavelmente vai querer” que uma eventual retomada do ciclo de flexibilização monetária, caso ocorra neste ano, seja acompanhada por um consenso mais forte do que o visto em dezembro. Ao longo de 2025, por exemplo, o Fed registrou uma série de divisões internas entre membros votantes, marcando um contraste com a aparente unidade em anos prévios.
O GS antevê um próximo corte de 25 pontos-base apenas em junho, seguido por um corte final em setembro, que levaria a taxa-alvo Fed Funds ao intervalo entre 3,0% e 3,25%. O JPMorgan, por sua vez, projeta que o Fed manterá os juros inalterados em 2026, seguido por um aumento de 25 pontos-base no terceiro trimestre de 2027.
“Se o mercado de trabalho se enfraquecer novamente nos próximos meses, ou a inflação recuar significativamente, o Fed ainda pode aliviar os juros mais tarde neste ano. No entanto, esperamos que o mercado de trabalho se aperte no segundo trimestre, e o processo de desinflação seja bastante gradual”, afirmou o economista-chefe para os EUA do JPMorgan, Michael Feroli.
INDEPENDÊNCIA É PONTO-CHAVE
Às margens da reunião desta semana, operadores também terão a primeira oportunidade de ouvir Powell após o duro tom adotado pelo chair do Fed em uma resposta extraordinária em 11 de janeiro, depois de ter recebido intimações do grande júri relacionadas a uma investigação do Departamento de Justiça.
De acordo com a Bloomberg, há especulações de que Powell poderia optar por permanecer como membro do conselho de governadores do Fed mesmo após o término de seu mandato como chair, em maio. Uma eventual permanência atrapalharia os planos de Trump de indicar um nome para o conselho de governadores do banco central, e minaria a capacidade adicional de o republicano influenciar a política monetária.
Em um período incomum para o Fed, Powell certamente será questionado por jornalistas a respeito do assunto na coletiva de imprensa. A disputa entre Trump e Fed é extremamente importante para investidores globais, sob âmbito da independência do banco central.
Em coluna no sábado, o comentarista-chefe de Economia do Wall Street Journal, Greg Ip, afirmou que o Fed “não será o mesmo”, e que o próximo presidente, que assumirá o cargo em apenas quatro meses, corre o risco de sofrer o mesmo tratamento que Powell caso desafie Trump.
A Kalshi precifica 48% de chances de o diretor executivo sênior da BlackRock, Rick Rieder, ser escolhido por Trump como próximo chair do Fed, com apurações da Bloomberg indicando que sua candidatura foi fortalecida pela abertura para implementar mudanças que reformulem o banco central.
De acordo com a XP, a nomeação de Rieder seria considerada um movimento novo pelos olhos do mercado, pois marcaria a entrada de “uma pessoa de fora” no Fed. Em suas últimas manifestações sobre a política monetária americana, Rieder avaliou que existe espaço para novos cortes de juros.