
Brasília, 26/1/2026 – O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve manter a Selic inalterada em 15,0% nesta quarta-feira, em decisão sem surpresas, pela quinta reunião consecutiva, segundo consenso de mercado, com pouca alteração na maioria dos indicadores econômicos relevantes para a autarquia desde dezembro.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, reforçou no mês passado que o colegiado adotaria uma postura “dependente de dados”, o que fortalece o viés de manutenção dos juros, já que desde então os dados do mercado de trabalho vieram mais fortes que o esperado e as expectativas inflacionárias de médio prazo seguem acima da meta.
O Copom inicia reunião de juros de dois dias na terça-feira, e informa decisão na quarta, a partir das 18h30. Opções negociadas na B3 na segunda-feira indicavam 83% de chances de juros inalterados, de acordo com contratos vistos pela Mover no início da tarde desta terça.
Desde dezembro, os membros do colegiado lidaram com um mercado de trabalho resiliente, na esteira de uma taxa de desemprego que renovou mínima recorde pela quarta vez em 2025, indo a 5,2% no trimestre encerrado em novembro. Já no âmbito da atividade, os indicadores seguiram indicando moderação, mas houve desempenho heterogêneo.
A produção industrial teve leitura estável em novembro na base mensal, enquanto consenso previa alta de 0,10%. Já o volume de serviços recuou 0,1% no mesmo período, ante consenso de alta de 0,1%. As vendas no varejo restrito, por sua vez, avançaram 1,0%, muito acima do consenso, de 0,3%.
No front de preços, ainda que o IPCA tenha encerrado o ano de 2025 com alta de 4,3%, dentro do intervalo de tolerância da meta, a inflação de serviços subjacentes mostrou piora na margem, o que em termos qualitativos oferece leitura de cautela à condução da política monetária pelo BC.
“Serviços intensivos em mão de obra apresentaram surpresa altista. Esse quadro reforça a percepção de que o mercado de trabalho aquecido continua pressionando os preços de serviços”, afirmou o Itaú em relatório a clientes.
Se o colegiado já vinha enfatizando a necessidade de manutenção de uma política monetária “significativamente contracionista”, os indicadores recentes “não foram suficientes” para deixar os membros do colegiado mais confiantes sobre o início do ciclo de corte de juros em janeiro, afirmou a XP em relatório a clientes.
Ainda assim, embora deva manter um tom hawkish na comunicação desta quarta, justamente evitando sinalizar explicitamente ao mercado que um corte em março seria o “plano de voo”, o Copom poderia passar a descrever que o cenário requer uma política monetária “contracionista por período bastante prolongado”, eliminando o termo “significativamente”, aposta a XP.
O Itaú, por sua vez, aponta que o colegiado poderia remover o lembrete de que pode retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado, abrindo caminho para a opção de corte em março. “O comitê deve afirmar que a estratégia em curso tem se mostrado adequada, substituir a ênfase em se manter vigilante por uma prescrição de paciência e serenidade”, complementou o economista-chefe, Mario Mesquita.
A XP antevê o início do ciclo de cortes de juros a partir de março, com cinco reduções consecutivas de 50 pontos-base, levando os juros ao patamar de 12,5%. Também aposta que o colegiado faça uma pausa para reavaliação no segundo semestre do ano. “O espaço para redução adicional de juros dependerá das perspectivas de reformas fiscais a partir de 2027.”
O Itaú também deslocou a projeção para um primeiro corte de 25 pbs para março, ante janeiro, com a necessidade do colegiado em ganhar mais confiança acerca do processo de desinflação, em meio ao mercado de trabalho resiliente.
O BTG, na ponta contrária, vê janeiro como uma “opção apropriada” para o início do ciclo de corte de juros em 25 pontos-base, na esteira da desaceleração da atividade econômica já há alguns trimestres, perda de tração em segmentos mais cíclicos, e desinflação observada nos preços.
“Resiliência (da inflação de serviços) é consistente com as defasagens usuais na transmissão monetária: atividade e crédito desaceleram primeiro, depois o emprego, seguido pelos salários e, somente mais tarde, pelos preços dos serviços”, afirmou a economista do BTG, Iana Ferrão, em relatório a clientes.
Para 2026, o BTG antevê um eventual estímulo fiscal “muito mais contido” ante o precificado por parte do mercado. “Nosso cenário base não incorpora pressões adicionais significativas do lado da demanda, reforçando a expectativa de crescimento mais fraco no futuro e sustentando um ambiente consistente com início da calibração da política monetária em janeiro.”
Ferrão argumenta que mesmo com um eventual corte inicial de 25 pbs, o juro real seguiria em nível muito alto em decorrência da queda da inflação corrente e das expectativas de preços desde meados de 2025, o que preservaria as condições monetárias contracionistas.
PROJEÇÕES
A XP calcula que a projeção para o horizonte relevante do BC, que passará a ser o terceiro trimestre de 2027 a partir desta semana, deverá recuar a 3,1%, ante 3,2% no Relatório de Política Monetária referente ao quarto trimestre, em dezembro. Já a projeção para o IPCA ao fim de 2026 deverá se manter em 3,5%.
O Itaú, por sua vez, antevê manutenção da projeção para inflação no horizonte relevante em 3,2%. O colegiado também deverá elevar a projeção para inflação em 2026 a 3,6%.