´Caos´ de Trump pode ajudar Galípolo

Mercado reprecifica curva de juro e projeta corte de Selic já ao fim do ano; commodities despencam

Mercado reprecifica curva de juro e projeta corte de Selic já ao fim do ano; commodities despencam

Por: Gabriel Ponte

São Paulo, 4/4/2025 – A curva de juros local tem reprecificado o nível da Selic terminal no atual ciclo de aperto monetário desde o anúncio da imposição de tarifas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sob viés de que o Brasil pode surfar de um arrefecimento dos preços de commodities nos mercados internacionais, que facilitaria o combate à inflação, abrindo espaço para corte de juro já ao fim deste ano, embora incertezas sobre a trajetória do câmbio pairem entre operadores.

Na manhã desta sexta-feira, a curva de juros já precifica cerca de 16 pontos-base de corte da Selic nas duas últimas rueniões do ano do Comitê de Política Monetária (Copom), abrindo espaço, efetivamente, para uma redução de 25 pontos-base do juro, a 14,75%, em dezembro, de acordo com Bloomberg. Os investidores também têm reduzido a precificação de alta da Selic na reunião de maio do Copom, com nível terminal de 15% sendo alcançado na reunião de junho, na expectativa por desaceleração global após as tarifas.

Os vértices intermediários da curva de juros recuam até 3,5 pontos-base na sessão, enquanto os curtos operam próximos da estabilidade, na esteira da reprecificação da trajetória de juros pelo Copom ao fim deste ano.

“Próximo movimento é o fechamento das Bs. Isso pode fazer as domésticas darem mais uma pernada para cima. O DXY derretendo, o petróleo nas mínimas, commodities agrícolas caindo e a atividade industrial fraca. Tudo que o Galípolo precisa para cortar no segundo semestre. Esse 6% de juro real entre Brasl e EUA não vai durar muito não”, afirmou Christian Keleti, founding partner na Alpha Key, no “X”.

Um corte de juros seria certamente muito bem recebido no Palácio do Planalto– a ministra Simone Tebet deixou escapar, na terça-feira, em evento do BC, que já tem esperanças em uma redução dos juros “um pouco antes do imaginado”, no segundo semestre. Ainda em fevereiro, Lula disse que era preciso dar a Galípolo “o tempo necessário para fazer as coisas”, e que tinha “certeza” que ele iria “consertar a taxa de juros”. 

Nas redes sociais, já circula pela “Fintwit”, no “X”, meme com a imagem de Galípolo com os braços cruzados e a legenda: “Do nothing. Win”. (Não faça nada. Vença).

EUA

Nos EUA, as Treasuries yields de dez anos operam firmemente abaixo do patamar de 4,0% nesta sexta, recuando 9,4 pontos-base, a 3,940% – o menor nível desde outubro de 2024 – sob temores contínuos de uma recessão econômica. Em fevereiro, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, já havia afirmado que o governo Trump tem como meta reduzir, estruturamente, os juros longos da economia local por meio de políticas que barateiem os preços de energia e reduzam o déficit fiscal dos EUA.

Hoje, Trump voltou-se contra o Federal Reserve, e disse ser “o momento perfeito” para o banco central reduzir a taxa-alvo Fed Funds, citando a queda nos preços de energia e até dos ovos. “Corte os juros, Jerome, e pare de fazer política!”, publicou o presidente em sua rede Truth Social, em cutucada no chair do Fed, Jerome Powell.

Minutos depois, em evento econômico, Powell afirmou que a obrigação do banco central é manter as expectivas de longo prazo para a inflação ancoradas, garantindo que um aumento único no nível de preços não se torne um problema de inflação contínuo.

“Parece que não precisamos estar com pressa, temos tempo”, afirmou Powell, ao comentar a reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC).

Também de acordo com Powell, é possível que as tarifas impostas por Trump possam ter efeito inflacionário mais “persistente”, com a inflação avançando nos próximos trimestres. O Fed está “bem posicionado” para aguardar por maior clareza antes de ajustes”, complementou.

A tese do excepcionalismo americano – testada em meio às crescentes projeções de desaceleração e recessão nos EUA – tem pressionado o DXY, em um movimento de rotação global visto. Embora opere em alta de 0,63% na sessão desta sexta, o DXY registrou queda de 1,52% na véspera – a maior desde novembro de 2022.

Também cresce entre bancos de investimento, gestores e operadores a visão de maior probabilidade de os Estados Unidos enfrentarem uma forte desaceleração econômica, culminando em recessão, como resposta ao impacto das tarifas de Trump sobre o nível de preços e da atividade local.

As mais recentes leituras mostram contínua piora no sentimento do consumidor e dos empresários, bem como expectativas de inflação de longo prazo nas máximas em mais de três décadas, de acordo com a Universidade de Michigan.

BRASIL

Entre operadores, a modelagem do BC para a projeção da inflação ao consumidor ganha relevância no atual momento, em razão da queda significativa das commodities nos mercados internacionais vista nesta semana. Os futuros do Brent para entrega em junho acumulam queda superior a 13% entre quarta e sexta-feira, sob viés de uma menor demanda global por energia diante da tese construída de desaceleração econômica global.

Na modelagem do BC, apresentada no Relatório de Política Monetária de 27 de março, a projeção para o IPCA ao fim do quarto trimestre de 2026 – que passará a ser horizonte relevante a partir de maio – estava em 3,7%, acima do centro da meta de inflação. Porém, de acordo com o contribuidor do TC, Alex Martins, a depreciação do brent vista somente ontem já contribui para uma redução da projeção para o IPCA a 3,4%.

“A modelagem (com atualização das variáveis econômicas pós-eventos de quarta) está levando a inflação para a meta. Por isso estão pressionando para baixo os DIs. O vértice para 2027 foi o que mais caiu ontem, e o que mais tem espaço para fechar. Corre risco de termos uma inflação abaixo da meta em 2027”, disse Martins.

Dados de ontem já mostravam gasolina e diesel da Petrobras 3% acima da paridade internacional (PPI)– com a queda de hoje, e visão de que esse recuo no petróleo veio para ficar, a estatal deveria ter espaço para cortar preços dos combustíveis.

CÂMBIO

A trajetória do real ante o dólar, porém, outra variável significativa para a autoridade monetária, conta duas histórias diferentes entre quinta e sexta, de acordo com operadores.

Se na quinta o real encontrou espaço para apreciar-se ante o dólar, enfraquecido globalmente pela leitura de desaceleração econômica e recessão nos EUA, a moeda americana volta a ganhar força hoje, em ampla sessão de riskoff, intensificada pela retaliação da China à imposição de tarifas pelos EUA.

“É preciso saber separar o dia de ontem com o dia de hoje. Quinta-feira foi o dia em que você tinha, muito mais, uma precificação daqueles (ativos, praças globais) que poderiam ser mais penalizados, e a precificação dos ganhadores. E assim se entendeu dos ativos brasileiros (ganhadores). Mas hoje não”, complementou Martins.

O Ibovespa encerrou em ligeira queda na sessão de quinta, escapando da queda generalizada vista nas bolsas globais, enquanto S&P500 e Dow Jones tiveram suas piores sessões desde junho de 2020, e o Nasdaq 100, desde setembro de 2022.